My Own Moon

[2018] Espaço Mira, Porto

Curadoria José Maia e João Terras      

:::

Na Umbra e na Penumbra A recorrência de determinado acontecimento agita-se no eco da pro-posição insanável da existência. Permitam-me dizê-lo. Há dias, no decurso de uma viagem, li no recanto de uma parede cega: o meu corpo fica em deleite na retoma de um mundo despido, no eco das suas paixões. O ser anónimo que o escreveu perspetivou o estigma do eco e da retoma. Por consequência, dias mais tarde, ouvi pela boca do próprio artista: normalmente as ideias nascem de umas exposições para as outras, e por coisas que vão acontecendo, há sempre um eco que vai fazendo as coisas surgir. Olaio não pediu à Terra a sua sombra, nem à Lua a sua vergonha recôndita, nem tão pouco ao Sol a sua chama, na verdade nem pediu nem o sabia; não almejou a Lua vermelha, nem ela imaginava a projeção que teria. É nessa circunstância que subjugamos o corpo à ideia e por conseguinte a forma à sua matização. Mesmo que essa forma seja corpo e eco, mesmo que essa ideia seja o refluxo de um universo fantasmático ainda mais complexo. A exposição que António Olaio apresenta agora no Espaço MIRA constitui-se na umbra e na penumbra do seu ser com mundo, com o tempo, com o espaço e com a memória, constitui-se na sombra de uma qualquer ideia que sempre se retoma, repete, voa e cai. Quase um mês depois do eclipse lunar, o maior do século, Olaio revê o poema e o vídeo “MY OWN MOON” realizado em 2009, e espacializa a componente de imagem numa instalação composta por quatro projeções de vídeo, sonoriza a galeria com a canção escrita em colaboração com o músico João Taborda, instala dez novos desenhos realizados a grafite sobre papel que dialogam com o vídeo original, e apresenta uma performance no dia da inauguração. Será assim aquilo a que poderemos chamar uma exposição de retoma, sendo que essa retoma se constitui no eco de uma nova configuração. A subtração a que a Lua é submetida perante o peso e corpo da Terra constitui a proposição do jogo entre existência e superação. A Lua é coberta e cobre-se, o corpo da lua é submetido e submete-se, existe tanto da Terra no eclipse da Lua, como da Lua no seu eclipsar da Terra. Tal como Olaio escreve no seu poema - There’s a moonshadow in my shadow - , uma sombra do satélite da Terra sobre a sombra de si mesmo. No enfoque das partes de um corpo, na mimesis de uma imagem por definição. Assim, nos interstícios de uma relação cosmológica, existe sempre na sombra de um corpo o peso de um outro. No enredo desta complexa teia, a Arte perde por vezes a sua intuição e objetividade. Por sinal, a obra de António Olaio é a convicção no seio deste contra-senso. A criação na obra do artista surge no limbo entre unidade e estímulo, entre o ser composto e o ser por devir, a obra é objetiva, sendo que essa objetividade é a construção de um universo por filtrar. É contraditória, satírica mas producente. É uma obra que se agita nas fissuras do ser frenético e do ser calmo, na verdade, na fissura de tantos outros seres que foi constituindo ao longo do seu percurso, enquanto pintor, performer, poeta e músico. Uma consciência da ética e da ambiguidade, não existindo tempo nem espaço na sua obra. E é nessa a-geografia cosmológica que Olaio constrói um trabalho repetidamente de “hoje”, num hoje desmedido, por representar e por se estabelecer. A Arte não abre nem fecha, a criação artística em que Olaio se apoia é imbuída dessa assincronia da Arte, dessa mescla entre razão e devaneio, entre lógica e coesão, entre os meandros da língua e da linguagem, sendo que a Arte é e será, à linguagem, o que sempre lhe faltará. Num longo percurso de vida, nos golpes intercalares e unificadores de poeta, músico, performer, pintor e professor, a obra de Olaio é a prova de uma lucidez que desmistifica os equívocos e os paradoxos da complexa teia da criação artística. Neste equívoco, por fim, pronuncia-se, sempre, o pressuposto da existência. De forma clara e límpida, existir, tanto da parte de quem a faz como de quem a vê (nas palavras do artista). Talvez seja esse o sítio da arte, esse que Popper um dia exclamou, - where angels fear to tread (1) - onde os anjos temem pisar -. Na vida - como um bálsamo, que não consola se não pela ideia de que é um bálsamo. (2)

 

João Terras, Agosto 2018    

 

(1) Alexander Pope em An Essay on Critcism (1711)

(2) Álvaro de Campos em Passagem das Horas (1916) - Livro de Versos - Fernando Pessoa

:::

Espaço MIRA Rua de Miraflor 159, 4300-334, Campanhã, Porto

terça a sábado, 15:00 - 19:00

http://miragalerias.net espacomira@miragalerias.net

929 145 191 // 929 113 431